Passei, nesses
últimos dias, meu olhar pelo noticiário nacional e não dá outra: copa do mundo,
construção de estádios, ampliação de aeroportos, modernização dos meios de
transportes, um frenesi em torno do tema que domina mentes e corações de dez
entre dez brasileiros.
Há semanas, o
todo-poderoso do futebol mundial ousou desconfiar de nossa capacidade de
entregar o “circo da copa” em tempo hábil para a realização do evento, e deve
ter recebido pancada de todos os lados pois, imediatamente, retratou-se e até
elogiou publicamente o ritmo das obras.
Fiquei pensando: já imaginaram se um terço desse vigor cívico-esportivo
fosse canalizado para melhorar nosso ensino público? É… pois se todo mundo acha
que reside aí nossa falha fundamental, nosso pecado social de fundo, que
compromete todo o futuro e a própria sustentabilidade de nossa condição de
BRIC, por que não um esforço nacional pela educação pública de qualidade igual
ao que despendemos para preparar a Copa do Mundo?
E olhe que nem
precisaria ser tanto! Lembrei-me, incontinenti, que o educador Cristovam
Buarque, ex-ministro da Educação e hoje senador da República, encaminhou ao
Senado dois projetos com o condão de fazer as coisas nessa área ganharem
velocidade de lebre: um deles prevê simplesmente a federalização do ensino
público, ou seja, nosso ensino básico passaria a ser responsabilidade da União,
com professores, coordenadores e corpo administrativo tendo seus planos de
carreira e recebendo salários compatíveis com os de funcionários do Banco do
Brasil ou da Caixa Econômica Federal. Que tal? Não é valorizar essa classe
estratégica ao nosso crescimento o desejo de todos que amamos o Brasil? O
projeto está lá… parado, quieto, na gaveta de algum relator.
O outro projeto, do
mesmo Cristovam, é uma verdadeira “bomba do bem”. Leiam com atenção: ele, o
projeto, prevê que “daqui a sete anos, todos os detentores de cargo público, do
vereador ao presidente da República serão obrigados a matricular seus filhos na
rede pública de ensino”. E então? Já imaginaram o esforço que deputados
(estaduais e federais), senadores e governadores não fariam para melhorar
nossas escolas, sabendo que seus filhos, netos, iriam estudar nelas daqui a
sete anos? Pois bem, esse projeto está adormecido na gaveta do senador Antônio
Carlos Valladares, de Sergipe, seu relator. E não anda. E ninguém sabe dele.
Jorge Portugal é educador, poeta e
apresentador de TV. Idealizou e apresenta o programa “Tô Sabendo”, da TV
Brasil.
Fonte: Terra Magazine
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